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ANÁLISE: esteve Alonso perto de ir ao pódio na Austrália?

Ainda sobre a corrida anterior…

Durante a última semana surgiram alguns artigos na imprensa sobre a prestação de Fernando Alonso no Grande Prémio da Austrália. Até aqui, nada de novo. Afinal, trata-se de um dos quatro Campeões do Mundo em actividade e um dos pilotos mais mediáticos da Fórmula 1 actual, não surpreende que seja também um dos mais escrutinados.

O que nos surpreendeu foi o conteúdo desses artigos. Os senhores faziam eco de declarações da Alpine sobre “uma peça de 2€ pode ter tirado um pódio a Fernando Alonso no Grande Prémio da Austrália”. Bem, uma afirmação ousada, pensamos nós. Sobretudo porque estamos a falar do último classificado da corrida. Os nossos amigos daqui do lado e os da ilha não iam esticar assim tanto a corda, pois não? Nem ninguém ia a correr dar eco a uma afirmação tão ousada sem tentar confirmar pois não?

Achamos que não mas, aproveitando a calmaria do fim-de-semana de Páscoa, fomos olhar para meia-dúzia de números enquanto enfardamos amêndoas de chocolate.

Os problemas começaram no Sábado

Os incríveis quases de Alonso começaram na Qualificação. O Alpine do asturiano mostrou-se muito rápido numa volta só durante os treinos livres e na Qualificação estava a cumprir o prometido. O sonho começou a ir por água abaixo durante a Q3, quando o seu A522 saiu em frente na curva 11 e terminou a sessão sem marcar qualquer tempo, atirando-o para o décimo lugar da grelha.

É aqui que entra a tal peça adquirida pela Alpine nas rebajas. Um vedante falhou, Alonso ficou sem sistema hidráulico e foi a gravilha e o muro a parar o Alpine. Uma pena, sobretudo quando Alonso vinha para a pole.

Os melhores parciais de cada piloto durante a Q3 da Austrália.

Ou… será que vinha? Uma das chatices dos circuitos é terem três sectores e é preciso marcar tempo nos três para o tempo valer. Max Verstappen que o diga, certamente não se esquece daquela volta quase perfeita em Jeddah o ano passado. Pena para ele, o tempo só vale se fizer o circuito todo.

Quer isto dizer que Alonso ia abrir o pára-quedas e ia estragar o seu tempo no terceiro sector? Mais ou menos. O que sabemos é que, ao longo de todas as sessões de treinos do fim-de-semana, o terceiro sector era o pior de Alonso e isso não mudou durante a qualificação.

Alonso conseguiu o melhor segundo sector e o quarto melhor primeiro sector mas nem no top 10 dos melhores tempos fez no terceiro sector.

Os melhores tempos de cada piloto por sector durante a Qualificação

O melhor tempo de Alonso no terceiro sector na Qualificação foi de apenas 34.020s, quase 0.7s mais lento do que Charles Leclerc. Se conseguisse replicar este tempo, Alonso ficaria com um tempo final de 1:18.629 o que o colocaria em quarto lugar na grelha, à frente de Lando Norris. Um excelente resultado, sem dúvida, mas não ia para a pole.

Antes que digam “ele bateu quando ia para a melhor volta, os outros parciais não contam”, lembremos que no FP2, a sessão de treinos disputada à mesma hora da Qualificação, o melhor parcial do asturiano no terceiro sector foi 34.131s. Uma vez mais, foi uma excelente volta, mas nenhum dado disponível indicava que o terceiro sector permitisse chegar à pole-position.

A táctica também conta

No Domingo, a corrida da Alpine começou condicionada pelo vedante das rebajas. Em vez de um quarto ou quinta lugar na grelha, Alonso partia de décimo. A Alpine decidiu partir a estratégia: Ocon com pneus médios (C3) e Alonso partia de pneus duros (C2).

A táctica não era descabida. Como previmos na nossa antevisão, Alonso e Sainz poderiam tentar partir de duros para puderem ter mais liberdade para atacar quem seguia à frente e tentar um undercut. A ideia seria sempre tentar esticar ao máximo o stint de duros (aproveitamos para tirar uma vez mais o nosso chapéu a Alex Albon) e, no final, com o carro leve atacar de médios ou até de macios, se as circunstâncias da corrida assim o permitissem.

Problema: os médios mostraram propensão a ganharem graining muito facilmente durante os treinos e, foi-se percebendo, eram para despachar o mais rapidamente possível. Para além da vantagem no arranque, quem partisse de médios poderia beneficiar de um safety-car na fase inicial da corrida e assim descartár-los mais rapidamente e ter uma paragem à borla.

Afinal o homem tinha ritmo ou não?

Pois, falta responder à questão “Alonso tinha ritmo para chegar ao pódio?”. A resposta muito simples é “não” e já vão perceber porquê.

Não é simples fazer uma comparação directa. Poucos carros estavam na tática de Alonso, apenas Sainz (ficou-se pela terceira volta), Magnussen e Albon. Todos os restantes saíram de médios. Com Sainz fora e Albon num Williams, olhando para a classificação do campeonato faz todo o sentido a comparação com Magnussen.

Na tabela abaixo fazemos uma comparação entre os tempos volta a volta de ambos. Consideramos o tempo de Alonso como a referência e calculamos a diferença. Uma diferença negativa (destacada a azul) significa que Alonso foi o mais rápido dos dois nessa volta e o valor numérico é a diferença em segundos entre ambos também nessa volta. Valores positivos (destacados a vermelho) indicam que Magnussen foi o mais rápido nessa volta. A lógica é a mesma para todas as comparações que fazemos neste artigo. A coluna “pneu” indica qual o composto que cada um utilizava nesse momento – branco, duro; amarelo, médio.

Os tempos por volta detalhados encontram-se aqui, caso queiram verificar alguma coisa.

Diferença de tempos por volta entre Alonso e Magnussen

Comecemos então por analisar os dados da comparação com Magnussen. A vantagem entre os períodos de safety-car é de Alonso mas não é uma vantagem muito grande. O asturiano foi o mais rápido nas primeiras seis voltas após a saída do safety-car mas depois seguiu-se um período onde alternava com Magnussen qual dos dois era o mais rápido. Na volta 16, o dinamarquês saiu de pista quando lutava com Yuki Tsunoda mas isso não comprometeu o seu ritmo.

Após o segundo safety-car as coisas não mudaram muito. Magnussen foi inicialmente mais rápido, Alonso esteve melhor nas duas voltas seguintes, depois foi novamente a vez do Haas e seguiu-se um período de Alonso a muito bom ritmo onde ganhou cerca de 5 segundos em 5 voltas. No entanto, nas últimas voltas a vantagem por volta foi diminuindo e, duas voltas antes do safety-car, Magnussen já era o mais rápido novamente. Aquele jogo de pneus tinha acabado? Seja como for, à volta 39 houve um breve período de virtual safety car onde ambos aproveitaram para trocar para pneus médios.

Após a paragem, Alonso era 13º e Magnussen 17º. Ambos ficaram presos num comboio de DRS atrás de Lance Stroll. Stroll tinha descartado os médios com uma dupla paragem durante o primeiro safety-car e não tinha de voltar a parar até final. Com isto, Lance era 9º, seguido de Gasly, Bottas, Schumacher, Alonso, Zhou, Tsunoda e por fim Magnussen.

A partir daí, acabou a corrida de Alonso. Na tentativa de recuperar posições, destruiu rapidamente o jogo de pneus. Na comparação com Magnussen, o Haas foi consistentemente mais rápido em praticamente todas as voltas do stint de médios até Alonso voltar a parar para um novo jogo de médios, a 5 voltas do fim.

O piloto da Alpine ainda passou Mick Schumacher em pista mas rapidamente perdeu ritmo e ficou cada vez mais lento até voltar a parar. No entanto, na volta 52, uma volta antes de decidir parar, Alonso foi ultrapassado por Zhou e Magnussen.

O stint de médios foi complicado para Alonso que acabou a afundar-se na classificação

Quanto à corrida de Magnussen, vimos que o ritmo foi próximo do de Alonso. Andou a Haas perto do pódio? Não, Kevin Magnussen acabou fora dos pontos, em 14º. Poderá ter sido um problema de estratégia? Pouco provável, tal como a Alpine, a Haas dividiu a estratégia pelos seus dois pilotos e o resultado… foi que tanto fazia. Schumacher e Magnussen acabaram como começaram, com o alemão imediatamente à frente do dinamarquês e com os dois pilotos a terem ritmos semelhantes durante toda a corrida.

Fica curto para ir ao pódio mas, por isso mesmo, vamos comparar os tempos com os de alguém que esteve realmente em luta pelo pódio.

Magnussen e a Haas tiveram a sua pior corrida do ano na Austrália

Hamilton traído pelo safety-car

Se há alguém que, nesta corrida, tinha boas hipóteses de ir ao pódio e não foi por falta de sorte, esse alguém é Lewis Hamilton. O britânico perdeu o que viria a ser o terceiro lugar para o seu colega de equipa, George Russell, quando o safety car saiu imediatamente após a sua paragem. Hamilton acabaria por terminar em quarto, logo atrás de George Russell.

Hamilton, tal como Russell, partiu de médios e trocou para duros pela volta 22. Na comparação abaixo as voltas onde Hamilton foi mais rápido aparecem assinaladas a azul-turquesa.

Diferença de tempos por volta entre Alonso e Hamilton

A tabela é bastante esclarecedora. Nem com os C2, nem com os C3 Alonso esteve sequer próximo do ritmo de Lewis Hamilton. A diferença média por volta, ao longo de toda a corrida, foi de pouco mais de 1,2s, favorável a Hamilton. Em todos os momentos e em todas as circunstâncias da corrida, Alonso e a Alpine andaram longe do ritmo dos lugares do pódio.

No final da corrida Alonso falou que “ficou com a sensação que teriam ritmo para os Mercedes durante o fim-de-semana” mas em pista faltou demonstrar isso, independentemente do lugar de onde arrancou.

Hamilton não tem tido o início de temporada que desejava mas o ritmo dos Mercedes ainda é bem superior ao do chamado segundo pelotão

E a como fica em relação a Ocon?

A Alpine falhou também em estratégia falhada. É estranho, se virmos que, no caso da Haas, Magnussen e Schumacher mantiveram andamentos semelhantes, apesar as estratégias divididas. No caso de Albon, também na mesma estratégia inicial de Alonso, a Williams conseguiu até maximizar essa estratégia. Será que outra tática poderia ter produzido melhores resultados?

Vamos ver a comparação com Ocon. Aqui as voltas com vantagem de Ocon surgem assinaladas a rosa (calha bem a Alpine ter duas cores tão distintas). Ocon, recorde-se, arrancou de oitavo, imediatamente à frente de Alonso, e terminou um lugar acima, fruto do abandono de Max Verstappen. Foi o único dos Alpine a pontuar. Vamos então à comparação entre companheiros de equipa.

Diferença de tempos por volta entre Alonso e Ocon.

Nas primeiras voltas as coisas correram dentro do previsto. Ocon com o pneu mais macio e com mais facilidade em ganhar temperatura foi o mais rápido após o safety-car. À medida que a vida nos médios foi acabando, Alonso foi ficando mais rápido e ganha mais de 7 décimos a Ocon antes deste parar à volta 17.

Após a volta de saída, Ocon de duros novos foi mais rápido do que Alonso de duros usados. Novo safety-car e a comparação nas voltas seguintes é semelhante à de Kevin Magnussen: ligeira vantagem inicial de Ocon, Alonso ganhou 2 segundos nas 2 voltas seguintes, Ocon retribiu a gentileza antes de uma boa sequência de 6 voltas de Alonso. Tal como aconteceu com Magnussen, a vantagem volta a volta foi diminuindo até Ocon ser mais rápido antes da paragem de Alonso.

Ocon foi o melhor dos Alpine na Austrália

O pecado veio uma vez mais no jogo de pneus médios. Ao contrário do que fez Ocon nas primeiras voltas com o jogo de médios, Alonso nunca conseguiu ganhar tempo a Ocon e o fosso entre os dois foi-se alargando e, com apenas 12 voltas, os médios de Alonso estavam destruídos e foi obrigado a parar novamente.

É verdade que Ocon apenas faz 12 voltas em ritmo competitivo com o seu jogo de médios, as outras 4 voltas foram atrás de safety car, mas mesmo antes de parar a diferença de ritmo para Alonso não era sequer comparável ao inverso. Ocon perdeu para Alonso 0.19s, 0.29s e 0.77s nas três últimas voltas com o jogo de médios, enquanto que Alonso 2.01s, 2.35s e 4.07s nas três últimas voltas antes de descartar o primeiro jogo de C3.

Isto tudo quer dizer o quê?

Quer dizer que não só Alonso não perdeu um pódio por azar, como fez uma má corrida. Tanto assim foi, que acabou em último.

O Alpine mostrou ter um excelente ritmo numa única volta, mas em corrida esteve muito longe disso. O ritmo de corrida dos dois Alpine esteve sempre longe dos dois Mercedes que ocuparam o terceiro e quarto lugares. Na verdade, o ritmo esteve muito mais próximo do da Haas, que terminou com os dois carros fora dos pontos, do que dos Mercedes. Ocon termina a 8 segundos do McLaren de Daniel Ricciardo que termina a corrida em ritmo de contenção.

Pode-se argumentar que Ocon não rodou tão rápido como Alonso mas não basta ser rápido, é preciso fazer os pneus chegarem ao fim e Alonso falhou nisso, particularmente no stint de médios.

Eventualmente se tivesse conseguido partir de quarto ou quinto, um lugar nos pontos seria perfeitamente possível. A dificuldade seria resistir a um undercut dos McLaren, que estiveram sempre mais rápidos em pista. Analisando todos estes dados, o melhor lugar a que Alonso poderia realisticamente aspirar, seria por onde Ocon terminou. Assumindo que não destruiria os pneus desta maneira.

Este Grande Prémio da Austrália deixa-nos a dúvida, andam Alonso e a Alpine a fazer glory runs na Qualificação, comprometendo o setup de corrida com isso? Explicaria a diferença de andamento entre Sábado e Domingo e explicaria também porque é que destruiu os pneus com tanta facilidade.

Veremos nas próximas corridas. Uma Alpine na luta por pódios e vitórias com Alonso e Ocon seria óptimo para o campeonato e para a Fórmula 1. Quantos mais, melhor. Os franceses parecem ter um projecto sólido e tem trazido evoluções, não nos surpreendia de os vermos lá na frente ainda este ano. Mas na Austrália ainda não era essa hora, nem foi uma visita do azar a tirar o pódio a Alonso e à Alpine. Faltou apenas não avariar na qualificação, acertar na estratégia, ter um ritmo melhor e não destruir pneus. Tirando isso, foi quase.

A Alpine ainda tem muito trabalho pela frente para lutar poder lutar por pódios

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