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ANÁLISE – Os minuciosos toques do W13

Já devem ter reparado, quantos mais carros vêm, mais fácil vos é encontrar as suas diferenças e identificarem se estamos a ver um carro real ou não.

Além disso, e pelas reacções recebidas hoje nas nossas redes sociais, também vos começa a ser mais fácil perceber se o carro foi ou não trabalhado.

O W13 é um bom exemplo dessa viagem feita pelos vossos cérebros, começam a olhar a pontos específicos dos carros, onde procurar o detalhe, onde esperar ver apêndices aerodinâmicos.

Sentimos essa transição, aliás, ainda fazemos esse processo convosco. Hoje a Mercedes apresentou um carro em pista e outro de estúdio, as formas gerais de ambos eram praticamente as mesmas, mas o carro presente em Silverstone era bastante mais trabalhado, daí os vossos comentários “este carro é completamente diferente”.

Acaba por ser estimulante, olhar, comparar com as outras equipas, ver a abordagem ao regulamento de cada um, sentimo-nos até mais compreendidos e não apenas uns maluquinhos a olhar para aletas.

E por isso, agradecemos desde já estarem a percorrer este caminho connosco.

Vamos ao W13?

A asa dianteira…interessante

A primeira coisa a saltar à vista neste W13 é a sua asa dianteira, perfis muito ondulados, numa asa a gerar carga a meio dos mesmos, deixado a zona central, perto do nariz afunilada. Detalhe este realçado a amarelo.

Voltamos a ter a peça que ajusta o nível dos perfis, a qual dobra como gerador do Y50/75.

E se repararmos na seta vermelha, é um vórticezinho ali? olha ele tão escondidinho a selar o fundo, malandreco.

Voltemos ao afunilamento dos perfis. Esta sim é a parte interessante.

Até aqui temos visto asas altas, umas mais do que outras é certo, mas relativamente altas, algumas até elevadas na zona central. O objecto da abordagem é claro, alimentar os túneis de Venturi.

Olhando para a asa do W13, esta, pelo menos em comparação é relativamente baixa. Então e os túneis? Na nossa previsão dos carros de 2022 apostávamos nas asas altas, as equipas têm apostado nas asas altas em detrimento da carga criada pelas mesmas, mas faz sentido, Mercedes faltou a este briefing?

Vamos recorrer a uma imagem do estúdio para percebermos, ou pelo menos para explicarmos aquilo que nos parece ter sido a abordagem da Mercedes.

Porque não alimentar os Venturi, conduzindo o fluxo por cima da asa? Essa é a nossa teoria para o design suis generis, este conceito, permite ainda à Mercedes mantar a suspensão push-rod, e utiliza o espaço perto do nariz para guiar o fluxo.

Sim, haverá alimentação por baixo da asa também, mas a Mercedes ao fazer isto, eventualmente consegue controlar melhor a forma como os seus Venturi são alimentados, mais, ao levar ar por cima da asa, poderá conseguir limpar um pouco da esteira do nariz.

Um detalhe, pode-se dizer simples, mas pode ter uma implicação importante a nível aerodinâmico.

Ai que calor

Falemos de packaging. E para falarmos do packaging do W13 temos de fazer o seguinte:

  • Se estão sentados levantem-se
  • Caso estejam na casa de banho, limpem-se primeiro
  • Já de pé façam um movimento ritmado, onde a palma da mão direita bate na palma da esquerda, ou vice-versa
  • Repetiam até acharem que prestaram a devida homenagem

Já quando a McLaren apresentou o seu carro, ficamos impressionados com o quão curtos eram os pontões, mas a Mercedes conseguiu melhorar ainda mais esse aspecto.

E esse é evidente se colocarmos alguns dos carros já apresentados lado a lado:

A quantidade de fundo ainda visível é incrível, e muito simples esta abordagem, tira-se material, desimpede-se a passagem do ar e escoa-se melhor o difusor. Simplicidade.

Claro, é preciso alcançar essa simplicidade, e não é à toa que vemos dois carros com motores Mercedes com packagings muito agressivos (e podemos contar o Williams também apesar de ainda não termos tido imagens para confirmar isso mesmo).

E reparem, mesmo assim, a cobertura do motor é esculpida, é fluído, olha-se para o carro e a primeira coisa conclusão (sim pode ser percipitada), é pensar “isto anda, isto vai ser rápido”. E mesmo em todo este magnífico extremismo, sopram a beam wing e o difusor.

Isto é fantástico, e quem conseguiu fazer este motor, e se este motor anda e é fiável com este empacotamento, chapeau!

Detalhes detalhes detalhes!

Vamos começar da esquerda para a direita na imagem que se segue

Estão a ver o fluxo a rosa? Desenhamos esse fluxo propositadamente alto, sobretudo em comparação com o verde.

O rosa seria fluxo cindo da parte superior da asa, o verde da parte inferior, e estamos a separá-los para mostrar um detalhe peculiar. Delineado a amarelo está o teto dos túneis de Venturi e a parede exterior, reparem como o teto está mais recuado (podem ver por exemplo aqui para comparação). Isto permite, teoricamente, uma abertura maior para o túnel de Venturi, e mesmo fluxos mais elevados, se cuidadosamente guiados (seja pela asa, por vórtices criados por ela, ou até pelo T-Tray) podem alimentar os Venturi.

A laranja vemos um defletor por cima da admissão de ar dos pontões, para além de definir o volume e guiar ar pelos sidepods com efeito downwash, é possível que tenha função também de ajudar à adesão dos fluxos na cobertura do motor (azul escuro). Como vemos, estes parecem ajudar no escoamento do difusor.

E continua a ser incrível por muitas vezes que se olhe para este carro, a quantidade de fundo visível, é possível ver facilmente a rampa de saída dos Venturi, a quantidade de fibra de carbono exposta…é fantástico.

Falar no fundo, ali aquela setinha azul turquesa? Nada de especial, são apenas sensores.

Já aquela aleta delineada a roxo, essa sim, não é algo propriamente novo, vimos equipas com algo semelhante o ano passado, serve para mitigar a turbulência criada pela parte frontal do pneu traseiro, por exemplo, ajuda a limpar o tyre squish (para quem não sabe o que é, falamos dele aqui)

No W13 vimos também o regresso dos wavy floors, este tipo de geometria do fundo, ajuda a canalizar pequenos fluxos, estes “pingam” para fora do fundo e como são mais rápidos, ao misturarem-se com o fluxo lateral criam vórtices (a picotado) com a função de selar o fundo, aumentando por isso o efeito de solo.

Neste artigo, do já velhinho regulamento podem até ver como o fundo é selado com os vórtices e como algumas aletas ajudam a limpar o tyre squish.

Detalhe do fundo ondulado do W13:

Em suma, muitos detalhes com capacidade de fazerem a diferença, mas muita simplicidade, e muito trabalho para alcançar essa simplicidade, por vezes olhamos para o W13 e nem pontões vemos, a cobertura bem esculpida, ainda que seja eventualmente a parte mais musculada do carro, mas nada de extraordinário, não é uma chaleira como Williams, não é largo como Ferrari ou o Aston Martin, é…impressionante, e desculpem novamente o termo, mas é, pode sair daqui um grande chouriço, custa-nos a querer, mas numa revolução aeordinâmica gigante, é o departamento da unidade motriz da Mercedes a poder fazer a diferença, prestando um grande auxílio aos colegas da aerodinâmica

E já sabem, motor Mercedes não parte, por isso, se der barraco, foram os nabos dos projetistas que se esqueceram das guelras (wink wink).

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