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F1: quando a Fórmula 1 foi a Las Vegas ao casino

Relembrar a primeira passagem da Fórmula 1 por Las Vegas: o Grande Prémio de Caeser’s Palace

Esta quarta-feira, alegadamente, teremos o anúncio de um novo Grande Prémio de Fórmula 1 em Las Vegas. Ao final do dia saberemos se o rumor é verdade ou não mas, a acreditar nas últimas notícias, parece inevitável que teremos muito brevemente um novo Grande Prémio em Las Vegas, em mais um circuito citadino.

Quanto a nós, parece-nos um excelente pretexto para lembrarmos a primeira ida da Fórmula 1 a Vegas. Já lá vão quase 40 anos, mas em 1981 e 1982 o Campeonato do Mundo terminou no parque de estacionamento de um Casino, o Caesar’s Palace.

Welcome back, Formula 1?

Fórmula 1 e América: um namoro antigo

Os Estados Unidos são uma velha paixão da Fórmula 1. No final dos ano 70, o namoro estava em força. Watkins Glen já era da casa, durante cerca de 20 anos foi umas últimas provas do Mundial e Long Beach, no início do calendário, ganhava popularidade.

No virar da década, o velho Glen perdeu a sua vaga. A pista era cada vez mais perigosa e, incapaz de pagar o que devia à Fórmula 1, o circuito saiu do calendário já durante 1981. Em Las Vegas, os donos do Caesar’s Palace já tinham feito uma primeira aproximação para organizar uma corrida em 1980. Inicialmente a ideia seria encerrar a temporada de 1980, organizando a prova algumas semanas após Watkins Glen mas não se concretizou.

Com a falência do Grande Prémio dos Estados Unidos em Watkins Glen, a proposta do Caesar’s Palace ganhou um novo interesse. Os donos do casino acreditavam que a Fórmula 1 poderia atrair público com muito poder financeiro. E os senhores do casino gostam de cidadãos com os bolsos fundos. Fórmula 1 e jogo, parece uma excursão apelativa para qualquer agência de viagens.

Traçado

O espaço para fazer uma pista de Fórmula 1 não era muito, mas lá se arranjou maneira de fazer um traçado de 3,65 km no parque de estacionamento do casino. O traçado era uma espécie de “E” gigante para poderem colocar o máximo de pista possível na relativamente pequena área disponível.

O resultado era um circuito completamente plano, repetitivo e que, resumidamente, não deixou saudades a ninguém. A pista tinha 14 curvas, mas muito semelhantes entre si. As rectas eram curtas e as curvas apertadas, o que fazia dele um circuito particularmente lento. A via das boxes tinha cerca de meio quilómetro de comprimento, ocupava duas “linhas do E”. Como não havia espaço no circuito para o pitlane, as boxes ficavam numa zona exterior. A via das boxes iniciava na curva 13, fazia um percurso a par dessa recta, uma longa curva por fora da curva e seguia depois ao longo da recta da meta. Juntava-se de novo à pista um pouco antes da curva 1.

O traçado tinha ainda outra particularidade, era em sentido anti-horário, um dos raros casos na altura. O traçado era extremamente exigente para o pescoço dos pilotos, pescoços esses que estavam ainda muito longe de ter o nível de preparação que têm actualmente. As temperaturas do deserto também não eram exactamente agradáveis.

Tudo isto somado contribuiu para que a pista não deixasse saudades a ninguém.

Como ponto positivo, a pista era bastante larga e tinha ainda espaço para ter muita gravilha… ou melhor, areia, já que para todos os efeitos Las Vegas é no meio do deserto.

O circuito do Caesar’s Palace. Era um grande parque de estacionamento

As corridas

Caesar’s Palace foi a prova de encerramento dos dois mundiais de que fez parte. Em 1981 assistiu à coroação de um exausto Nelson Piquet como Campeão do Mundo. Piquet, da Brabham, partia com um ponto de desvantagem para Carlos Reutmann, da Williams. O argentino teve problemas de caixa desde a segunda volta e foi-se afundando até terminar a uma volta do seu companheiro de equipa, Alan Jones, que venceu a corrida. Os dois pontos do quinto lugar bastaram a Piquet para se sagrar campeão por um ponto. Como curiosidade, foi uma das três corridas onde participou Jacques Villeneuve. O tio, não o filho. Ou o irmão, neste caso de Gilles. Jacques não se qualificou para a corrida, tal como aconteceu no Canadá na prova anterior e no ano seguinte.

Alan Jones festejou a vitória mas a festa do dia foi para Piquet, que se sagrou campeão do mundo – sim, isto são coroas de louros como os imperadores usavam.

A corrida de 1982 foi novamente a corrida de decisão do título. Foi também um dos três grandes prémios disputados nos Estados Unidos nessa temporada, juntamente com Long Beach e Detroid. Foi a primeira vez na história da Fórmula 1 que um país recebeu três corridas no mesmo ano, algo que só se iria repetir em 2020 com Itália, devido à Covid 19 (Imola, Monza e Mugello). A confirmar-se a nova corrida em Las Vegas, os Estados Unidos volta a ter três corrida com Austin, Miami e Las Vegas.

Ainda sobre a corrida de 1982, Keke Rosberg da Williams liderava o Mundial à chegada a Las Vegas, seguido de Didier Pironi da Ferrari e John Watson da McLaren. Embora Pironi chegasse a Las Vegas a apenas 3 pontos de Rosberg, na prática não entrava nas contas, uma vez que a sua carreira efectivamente terminara 4 corridas antes, depois de um violento acidente no Grande Prémio da Alemanha.

A corrida, disputada sob uns simpáticos 37ºC, foi ganha por Michele Alboreto num Tyrrell, uma vitória surpreendente. A Tyrrell não vencia desde 1976 e só o fez por mais uma vez na sua história, em Detroit no ano seguinte. Curiosamente um quinto lugar chegou novamente para selar o título, desta vez para Rosberg. O segundo lugar de Watson, não foi suficiente.

Foi uma corrida de muitas despedidas. Michael Andretti, campeão em 1978, fazia a sua última corrida na Fórmula 1, tal como as equipas Fittipaldi e Ensign. Colin Chapman fez a última corrida à frente da Lotus, falecendo no final do ano. Os carros com efeito de solo também seriam banidos no final do ano e só voltariam 2022. Por fim, foi a própria Fórmula 1 a dizer adeus a Las Vegas.

Michele Alboreto conseguiu uma surpreendente vitória para a Tyrrell

O adeus a Las Vegas e o regresso adiado

Os planos dos donos do Caesar’s Palace não correram como esperado. As corridas tiveram pouco público e foram um fiasco financeiro. O Grande Prémio de Caesar’s Palace não voltou ao calendário da Fórmula 1, em 1983 e 84 fez parte do calendário da CART, num traçado alterado. Após esses dois anos, acabaram as corridas no Caesar’s Palace.

Quanto ao local onde se disputou o Grande Prémio, hoje em dia é ocupado por duas torres de hotéis, uma zona com piscinas, uma arena desportiva e ainda um parque de estcionamento de vários pisos.

Nos últimos 40 anos houve várias tentativas de levar a Fórmula 1 de volta a Las Vegas. Em 1995 e 2005 existiram rumores de um possível regresso à sin city mas nunca concretizados. Os rumores voltaram nos últimos anos, com a Liberty. Falta a confirmação oficial (pelo menos enquanto escrevemos isto), mas tudo indica que é desta que voltamos a Las Vegas.

A Strip é o cenário falado para receber a Fórmula 1

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